
Houve um tempo em não havia no mundo nenhuma história para se contar. Todas pertenciam a Nyame, o Deus do Céu, que as guardava em uma preciosa caixa da qual, vez ou outra, deixava que uma história saísse apenas para seus próprios ouvidos. Kwanku Ananse, o deus-aranha, era muito curioso e morria de vontade de abrir a caixa para ver o que Nyame guardava com tanto cuidado. Ananse sabia pouco sobre aquele tesouro e resolveu tecer uma imensa teia que o levasse até Nyame e pedir que ele lhe falasse sobre o conteúdo daquela caixa tão incrível.
Nyame contou a Ananse que, quando soltas, as histórias podiam criar asas e voar continentes, que podiam dar aos velhos o frescor dos jovens e aos jovens a sabedoria dos velhos e o mais impressionante: transformavam-se. Nunca a mesma história poderia ser contada mais de uma vez. O deus-aranha ficou encantado. Não entendia por que Nyame mantinha aquelas maravilhas presas na caixa ao invés de espalha-las pelo mundo! O Deus do Céu, entretanto, deixou claro para Ananse que as histórias eram preciosas demais, verdadeiros tesouros e, como todo tesouro, eram apenas para quem merece. O Aranha não ficou convencido. Queria libertar as histórias para que corressem o mundo e, por isso, implorou durante muitas noites que Nyame lhe desse a bela caixa. Irritado com a insistencia de Ananse e querendo afastá-lo, o Deus do Céu mandou que ele capturasse três criaturas: Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis; Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam como Fogo e Moatia, a Fada que Voa como o Vento. Se o Aranha conseguisse prender essas três criaturas, Nyame daria a ele a oportunidade de abrir a caixa por alguns segundos e espiar as histórias. Na verdade, ele pensava que com uma tarefa tão impossível, o covarde Ananse fosse desistir da idéia. Mas não foi o que aconteceu. O velho-aranha topou o desafio sem pensar duas vezes e desceu de sua teia, finalmente dando ao Deus do Céu um momento de paz.
Primeiro, Ananse foi em busca de Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis. Assim que viu o Deus-Aranha, o Leopardo saltou sobre ele com um sorriso, ansioso para mastigá-lo no almoço. Ananse não se apavorou. Sabia que Osebo adorava jogos e propôs a ele, antes que sua cabeça fosse abocanhada, um jogo de amarrar e desamarrar. Ganharia aquele que fizesse um nó que outro não conseguisse desatar. Osebo topou o desafio na hora. Considerava-se um mestre dos nós e achava que a comida ficava ainda mais gostosa se misturada ao prazer de ganhar uma aposta. O Leopardo fez em Ananse o melhor de seus nós, amarrando suas mãos firmemente às costas. Mas o deus-aranha era astuto e, depois de se contorcer um pouco, soltou-se com facilidade do arranjo de Osebo. Em sua vez de amarrar, Ananse prendeu com sua teia de prata as quatro patas do Leopardo. Osebo contorceu-se por muito tempo, mas não conseguiu se soltar da teia mágica do deus e aceitou a derrota. “Você ganhou, Kwanku-Ananse. Sua teia é um nó que não sei desatar. Agora pode me soltar para que eu o mastigue.”, disse o Leopardo, querendo lembrar o velho da ordem natural das coisas. Mas Ananse já havia ido embora em busca de Mmboro, rindo e cantarolando, deixando Osebo preparado para ser entregue a Nyame, o Deus do Céu.
Ananse chegou ao palácio de Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam Como Fogo, e sentou-se do lado de fora, parecendo pensativo, olhando para uma cabaça. Vendo a cena, Mmboro foi até Ananse perguntar o que ele tanto pensava. O velho disse ao Marimbondo que imaginava se uma cabaça tão pequena e simples como aquela que ele tinha seria capaz de abrigar um rei como Mmboro. O Marimbondo respondeu a Ananse que era óbvio que aquela cabaça poderia servir de morada para um rei como ele, era até mesmo maior que seu palácio! Mesmo assim, Ananse não ficou convencido. Argumentava que aquela cabaça era pequena demais para um rei tão grandioso e que Mmboro não conseguiria nem mesmo entrar ali. O rei dos marimbondos era, além de grandioso, muito orgulhoso. Era capaz de fazer qualquer coisa para provar um argumento e resolveu mostrar à Ananse a ignorância de seu raciocínio. “Grandeza e força são mais do que atributos físicos, Kwanku. É ridículo que alguém tão astuto como você não saiba disso. Entrarei nessa cabaça e acabaremos essa discussão.”. Assim que Mmboro entrou dentro da cabaça, Ananse a tampou rapidamente, prendendo o Rei dos Marimbondos que Picam Como Fogo e deixando-o preparado para ser entregue a Nyame, Deus do Céu.
Para capturar Moatia, a Fada que Voa como o Vento, Ananse foi até uma grande árvore onde as fadas costumavam dançar durante o crepúsculo, o que dava ao céu belíssimas cores que fascinavam os homens. A fada que Ananse procurava sempre a primeira a chegar e sua dança era sentida no frescor que o ar ganhava com o cair da noite.
Ananse sabia que fadas adoravam coisas doces e, por isso, tratou de arranjar um cacho de bananas bem docinhas. Assim que o sol começou a se pôr, Ananse sentiu a brisa que anunciava a dança da fada. Ele puxou o enorme cacho de bananas, fingindo fazer força, largando-o bem em frente à árvore. “Ah! Não aguento mais! Essas bananas estão todas muito doces, mas não aguento mais carregar todo esse peso! Precisarei da ajuda de meus filhos para leva-las para casa!”, falou em voz alta, abandonando o cacho de bananas e embrenhando-se no mato, onde se escondeu. Sem esperar muito, a Fada já correu para o cacho de bananas, querendo comer todas as frutas antes que as outras fadas chegassem e a obrigassem a dividir aquela maravilha. Moatia comeu, comeu e comeu, até que não restasse sequer uma banana no cacho.
Ananse deixou seu esconderijo assim que a Fada comeu o último pedaço de banana para pegá-la. Normalmente, aquela fadinha Voaria como o Vento antes que o velho-aranha sequer tivesse tempo de preparar sua teia. Mas agora Moatia tinha comido demais e quando tentou levantar voo suas asas não aguentaram seu peso e ela caiu no chão. Sem perder tempo, Ananse a enrolou em sua teia, deixando-a preparada para ser entregue a Nyame, Deus do Céu.
Quando a noite chegou, Ananse teceu uma imensa teia de prata em volta de Osebo, Mmboro e Moatia e outra teia que ia do chão até o Céu e subiu por ela carregando os presentes até Nyame. “Nyame, Deus do Céu! Aqui estão as três criaturas que me pediu: Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis; Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam como Fogo e Moatia, a Fada que Voa como o Vento. Posso agora olhar a fabulosa caixa?”
O Deus do Céu ficou surpreso e frustrado com o sucesso do Deus Aranha, mas não era de quebrar promessas. Fez sinal para que Ananse se aproximasse, pegou a enorme caixa e abriu nela uma fresta, para que o Aranha espiasse as histórias que estavam ali escondidas. O que Nyame não lembrou é que Ananse não ligava tanto assim para promessas e que não queria só espiar as histórias. O velho aranha queria se tornar o dono delas e espalhá-las pelo mundo. Assim, quando o Deus do Céu abriu a caixa, Ananse deu um chute bem forte na caixa, fazendo rolar sua tampa e derramando sobre o mundo todas as histórias.
Ao ver seu tesouro esparramado pela terra, Nyame chorou. Agora as histórias eram todas de Ananse e dos homens e ele não tinha mais nada. O Deus-Aranha ficou com dó de Nyame. Querendo presentea-lo, envolveu com sua teia de prata a tampa da caixa que guardava as histórias, prendendo-a no céu. A tampa ficou enorme e brilhante com a prata da teia, e podia ser vista por todos os homens da terra. Ananse então disse a Nyame: “Agora todos sabem que as histórias foram espalhadas por Ananse e por isso a ele pertencem. Essa tampa de prata lembrará a todos que esses tesouros vieram de você, o Deus do Céu e cada história contada e criada será mais um presente à caixa de Nyame, que agora é a maior caixa de todas”, e com um gesto, Ananse mostrou ao deus do Céu que agora seu tesouro cresceria para sempre na imaginação dos homens, naquela imensa caixa que era o mundo. A tampa prateada ficou tão bela no céu que os homens a chamaram de Lua e em sua homenagem muitas histórias foram inventadas.

Esse Ananse é um malandro!!! Mas também um herói. Nos presenteou com essas maravilhas que são as histórias! E seguindo a idéia de que nenhuma história é contada da mesma forma duas vezes, fizemos o (Outras) Relendas...
ResponderExcluirA parte que eu mais gostei foi o final, quando visualizei a terra dos homens virando uma imensa caixa de histórias "tampada" pela lua.
Não conhecia essa lenda antes. Será que não há um lugar onde há essa lenda escrita como original? Pra compararmos e vermos o quão longe foi a relenda?
Até a próxima relenda!
Bom, a história é oral e não tem uma fonte original, que conte a história certinha, com uma versão só. Existem muitas. Eu mesma, nessa história, misturei várias versões E inventei um monte de coisas. De qualquer maneira, a história que me deu mais base está nesse endereço:
ResponderExcluirhttp://sandraregina.multiply.com/recipes/item/7/7
Beijo!!
Ai, ai, esses africanos são loucos por uma história oral (e nós também, né?)! Sabiam que a África é um dos países com um acervo de documentos históriográficos mais pobres e inexplorados? Os africanos costumavam contar seus fatos históricos de geração em geração para narradores selecionados.
ResponderExcluirEsses "guardiões" das histórias africanas sempre contam a história da mesma forma e nos mínimos detalhes. Para os africanos, a palavra tem um caráter sagrado e único e a mentira é algo completamente abominável - para eles "aquele que corrompe a palavra corrompe a si próprio". [own!]
Achei uma frase muito legal de um livro que trabalha com historiografia africana (é, já passei por essa fase na faculdade!) e até guardei a frase no meu e-mail de tão bacana que achei: " (Para um "detentor da palavra falada") Resumir uma cena equivale, para ele, a escamoteá-la. Ora, por tradição, ele não tem o direito de fazer isso. Todo detalhe possui sua importância para a verdade do quadro. Ou narra o acontecimento em sua integridade ou não o narra. Se lhe for solicitado resumir uma passagem, ele responderá: ' Se não tens tempo para ouvir-me, contarei outro dia' ".
Enfim, adoro histórias com caixas/baús/tesouros/instrumentos mágicos! A Caixa de Pandora me faz viajar muito, por exemplo... Ah, só eu fiquei com dó do Leopardo? :(
É triste que aquele continente não possua um registro de todas as suas histórias. Dependem da oralidade para sobreviver, e são destruídas assim como as tribos em suas guerras civis.
ResponderExcluirE que nenhum tradicionalista da oralidade africana leia nosso blog, pois ficaria horrorizado com tantas modificações que estamos fazendo aqui... Ou quem sabe, no futuro, este seja o principal registro da lenda de Ananse, contada e defendida pelos tradicionalistas! Hehe.
Ah, Ananse, o trapaceiro. Quem não se apaixona por um personagem que sai das encrencas como quem acabou uma brincadeira? Quem não adora o jeito que o espertinho pega seus inimigos, maiores e mais poderosos? Quem não se perde nas teias de suas estórias bem contadas? Eu sim, e me perdi por aqui! Espero ver mais da sua tessitura Nath! :)
ResponderExcluirDe seu admirador
Rodrigo