Era uma vez uma garota chamada Winnie, uma belíssima índia e princesa de uma tribo do sul. Era uma jovem tão graciosa que assim que nasceu, vislumbrando o seu futuro cheio de encantos, os deuses começaram a apostar quem conquistaria o seu coração quando ele finalmente desabrochasse.
Tannus, o deus da pureza e inocência, foi quem formou aquela moça. Havia voltado de uma longa expedição e colocou naquela semente que brotava no ventre da mãe de Winnie todos as virtudes e tesouros que havia encontrado durante sua viagem, formando assim uma aura explosiva, viva e que emanava em seu ser uma luz magnífica. Assim que notou que sua formosa obra estava sendo disputada pelos outros deuses, jurou-lhe amor e proteção total.
Os anos se passaram e o vislumbre de todos os deuses se concretizou: Winnie era a mais bela mulher que vivia na terra. Aos 15 anos, os deuses começaram a visitar a terra em formas de humanos para tentarem conquistar seu coração.
Yamil, deus da discórdia, estava bem próximo de ganhar o coração da moça - enchendo-lhe o peito de mentiras e falsas adulações, interessado apenas em ganhar a aposta e trazer a discórdia entre os demais deuses, até porque a discórdia não gosta da união, mas da solidão.
Tannus, apaixonado pela pureza da jovem, insistia na disputa enquanto os demais deuses já tinham dado vitória a Yamil.
Cansado da morosidade da luta, Yamil resolveu aplicar um de seus trapaces. Durante a noite, no jantar dos deuses, enquanto Hilarius, o deus do humor, contava piadas e distraia a atenção de todos, Yamil jogou na bebida de Tannus uma semente.
Ser um deus da discórdia entre deuses não era muito interessante e, na verdade, deixava Yamil completamente entediado. Os deuses sempre sacavam os seus truques e armações e, geralmente, a discórdia nunca reinava plenamente... Todos os deuses sentiam a mesma coisa em relação a seus dons perante os outros imortais. É por esse motivo que inventaram a oportunidade única de misturar-se aos humanos, virando quando quisessem homens - porque assistir a vida humana e guiá-la é divertido, mas vivê-la é um dos prazeres que acreditavam que todos deveriam experimentar. Quando tomavam sua forma humana, os deuses absorviam as fraquezas dos homens mas ainda podiam emanar seus poderes.
Tannus bebeu a semente sem notar, até porque não poderia lhe fazer nenhum mal estando em seu corpo de deus imortal... Só não sabia o que a semente poderia trazer a sua forma de homem.
Na manhã seguinte, assim que despertou e desceu até a Terra para encontrar sua imaculada Winnie, transformou-se em sua versão humana. A semente que bebera na noite anterior virou um inseto, um mínusculo e insignificante inseto que se alojou em seu ouvido direito.
Procurando Winnie, encontrou-a conversando atrás de uma árvore com a versão humana de Yamil. Assim que se aproximou aborrecido, Yamil se despediu da índia e partiu deixando o casal a sós.
Todas as conversas que tiveram naquele dia foram descoradas. O inseto estava se alimentando de todas as palavras quentes e amorosas de Winnie, cuspindo ao tímpano de Tannus apenas frases geladas e já sem sabor algum - isso quando não comia uma frase inteira.
Winnie não entendeu nada do que aconteceu, ficou triste. Entristeceu a tal ponto que, por questão de segundos, perdeu sua luz.
Lá do alto, Miarah, deusa da compaixão e da verdade, assistia toda confusão. Enquanto Tannus voltou angustiado para o Lar dos Deuses e caiu em um sono profundo de tanto desgosto, Miarah desceu à terra e conversou com a doce Winnie sobre o desenvolver de todo desentendimento.
Tannus estava tão amargurado que não visitou Winnie por dias e semanas, acreditando que ficar longe era a melhor forma de curar todas as feridas. Enquanto isso, Yamil descia até a terra todos os dias e passava horas e horas com a pequena princesa.
Quando resolveu olhar como estava Winnie lá do alto, Tannus ficou ainda mais amargurado por vê-la ao lado de Yamil novamente. Decidiu de uma vez por todas que deveria colocar um basta naquela situação, entregando a vitória ao deus da discórdia e se despedindo de Winnie de uma vez.
Assim que Tannus surgiu, Winnie deixou Yamil de lado e correu para os seus braços - embora não tenha sido recebida da forma como calorosa como desejava. Abraçou o amado e beijou-lhe intensamente, finalmente desabrochando.
Uma força tão forte invadiu o corpo dos dois que foi forte demais até mesmo para o inseto alojado dentro do ouvido de Tannus, que morreu e livrou seu corpo humano daquele encanto.
Yamil, irado, soltou-lhes uma maldição: "A discórdia pode sempre aparecer, em todo e qualquer lugar... Podem apostar, eu voltarei!". E ele realmente voltou várias e várias vezes, mas Winnie havia aprendido com exatidão o poder das palavras que a deusa da verdade, Miarah, havia lhe contado um dia: "As vezes as palavras, por mais verdadeiras que sejam, não são mais ouvidas... Faça então com que sejam sentidas."

