segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Peripécias da Discórdia


Era uma vez uma garota chamada Winnie, uma belíssima índia e princesa de uma tribo do sul. Era uma jovem tão graciosa que assim que nasceu, vislumbrando o seu futuro cheio de encantos, os deuses começaram a apostar quem conquistaria o seu coração quando ele finalmente desabrochasse.

Tannus, o deus da pureza e inocência, foi quem formou aquela moça. Havia voltado de uma longa expedição e colocou naquela semente que brotava no ventre da mãe de Winnie todos as virtudes e tesouros que havia encontrado durante sua viagem, formando assim uma aura explosiva, viva e que emanava em seu ser uma luz magnífica. Assim que notou que sua formosa obra estava sendo disputada pelos outros deuses, jurou-lhe amor e proteção total.

Os anos se passaram e o vislumbre de todos os deuses se concretizou: Winnie era a mais bela mulher que vivia na terra. Aos 15 anos, os deuses começaram a visitar a terra em formas de humanos para tentarem conquistar seu coração.

Yamil, deus da discórdia, estava bem próximo de ganhar o coração da moça - enchendo-lhe o peito de mentiras e falsas adulações, interessado apenas em ganhar a aposta e trazer a discórdia entre os demais deuses, até porque a discórdia não gosta da união, mas da solidão.

Tannus, apaixonado pela pureza da jovem, insistia na disputa enquanto os demais deuses já tinham dado vitória a Yamil.

Cansado da morosidade da luta, Yamil resolveu aplicar um de seus trapaces. Durante a noite, no jantar dos deuses, enquanto Hilarius, o deus do humor, contava piadas e distraia a atenção de todos, Yamil jogou na bebida de Tannus uma semente.

Ser um deus da discórdia entre deuses não era muito interessante e, na verdade, deixava Yamil completamente entediado. Os deuses sempre sacavam os seus truques e armações e, geralmente, a discórdia nunca reinava plenamente... Todos os deuses sentiam a mesma coisa em relação a seus dons perante os outros imortais. É por esse motivo que inventaram a oportunidade única de misturar-se aos humanos, virando quando quisessem homens - porque assistir a vida humana e guiá-la é divertido, mas vivê-la é um dos prazeres que acreditavam que todos deveriam experimentar. Quando tomavam sua forma humana, os deuses absorviam as fraquezas dos homens mas ainda podiam emanar seus poderes.

Tannus bebeu a semente sem notar, até porque não poderia lhe fazer nenhum mal estando em seu corpo de deus imortal... Só não sabia o que a semente poderia trazer a sua forma de homem.

Na manhã seguinte, assim que despertou e desceu até a Terra para encontrar sua imaculada Winnie, transformou-se em sua versão humana. A semente que bebera na noite anterior virou um inseto, um mínusculo e insignificante inseto que se alojou em seu ouvido direito.

Procurando Winnie, encontrou-a conversando atrás de uma árvore com a versão humana de Yamil. Assim que se aproximou aborrecido, Yamil se despediu da índia e partiu deixando o casal a sós.

Todas as conversas que tiveram naquele dia foram descoradas. O inseto estava se alimentando de todas as palavras quentes e amorosas de Winnie, cuspindo ao tímpano de Tannus apenas frases geladas e já sem sabor algum - isso quando não comia uma frase inteira.

Winnie não entendeu nada do que aconteceu, ficou triste. Entristeceu a tal ponto que, por questão de segundos, perdeu sua luz.

Lá do alto, Miarah, deusa da compaixão e da verdade, assistia toda confusão. Enquanto Tannus voltou angustiado para o Lar dos Deuses e caiu em um sono profundo de tanto desgosto, Miarah desceu à terra e conversou com a doce Winnie sobre o desenvolver de todo desentendimento.

Tannus estava tão amargurado que não visitou Winnie por dias e semanas, acreditando que ficar longe era a melhor forma de curar todas as feridas. Enquanto isso, Yamil descia até a terra todos os dias e passava horas e horas com a pequena princesa.

Quando resolveu olhar como estava Winnie lá do alto, Tannus ficou ainda mais amargurado por vê-la ao lado de Yamil novamente. Decidiu de uma vez por todas que deveria colocar um basta naquela situação, entregando a vitória ao deus da discórdia e se despedindo de Winnie de uma vez.

Assim que Tannus surgiu, Winnie deixou Yamil de lado e correu para os seus braços - embora não tenha sido recebida da forma como calorosa como desejava. Abraçou o amado e beijou-lhe intensamente, finalmente desabrochando.

Uma força tão forte invadiu o corpo dos dois que foi forte demais até mesmo para o inseto alojado dentro do ouvido de Tannus, que morreu e livrou seu corpo humano daquele encanto.

Yamil, irado, soltou-lhes uma maldição: "A discórdia pode sempre aparecer, em todo e qualquer lugar... Podem apostar, eu voltarei!". E ele realmente voltou várias e várias vezes, mas Winnie havia aprendido com exatidão o poder das palavras que a deusa da verdade, Miarah, havia lhe contado um dia: "As vezes as palavras, por mais verdadeiras que sejam, não são mais ouvidas... Faça então com que sejam sentidas."

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A História das Histórias


Houve um tempo em não havia no mundo nenhuma história para se contar. Todas pertenciam a Nyame, o Deus do Céu, que as guardava em uma preciosa caixa da qual, vez ou outra, deixava que uma história saísse apenas para seus próprios ouvidos. Kwanku Ananse, o deus-aranha, era muito curioso e morria de vontade de abrir a caixa para ver o que Nyame guardava com tanto cuidado. Ananse sabia pouco sobre aquele tesouro e resolveu tecer uma imensa teia que o levasse até Nyame e pedir que ele lhe falasse sobre o conteúdo daquela caixa tão incrível.

Nyame contou a Ananse que, quando soltas, as histórias podiam criar asas e voar continentes, que podiam dar aos velhos o frescor dos jovens e aos jovens a sabedoria dos velhos e o mais impressionante: transformavam-se. Nunca a mesma história poderia ser contada mais de uma vez. O deus-aranha ficou encantado. Não entendia por que Nyame mantinha aquelas maravilhas presas na caixa ao invés de espalha-las pelo mundo! O Deus do Céu, entretanto, deixou claro para Ananse que as histórias eram preciosas demais, verdadeiros tesouros e, como todo tesouro, eram apenas para quem merece. O Aranha não ficou convencido. Queria libertar as histórias para que corressem o mundo e, por isso, implorou durante muitas noites que Nyame lhe desse a bela caixa. Irritado com a insistencia de Ananse e querendo afastá-lo, o Deus do Céu mandou que ele capturasse três criaturas: Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis; Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam como Fogo e Moatia, a Fada que Voa como o Vento. Se o Aranha conseguisse prender essas três criaturas, Nyame daria a ele a oportunidade de abrir a caixa por alguns segundos e espiar as histórias. Na verdade, ele pensava que com uma tarefa tão impossível, o covarde Ananse fosse desistir da idéia. Mas não foi o que aconteceu. O velho-aranha topou o desafio sem pensar duas vezes e desceu de sua teia, finalmente dando ao Deus do Céu um momento de paz.

Primeiro, Ananse foi em busca de Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis. Assim que viu o Deus-Aranha, o Leopardo saltou sobre ele com um sorriso, ansioso para mastigá-lo no almoço. Ananse não se apavorou. Sabia que Osebo adorava jogos e propôs a ele, antes que sua cabeça fosse abocanhada, um jogo de amarrar e desamarrar. Ganharia aquele que fizesse um nó que outro não conseguisse desatar. Osebo topou o desafio na hora. Considerava-se um mestre dos nós e achava que a comida ficava ainda mais gostosa se misturada ao prazer de ganhar uma aposta. O Leopardo fez em Ananse o melhor de seus nós, amarrando suas mãos firmemente às costas. Mas o deus-aranha era astuto e, depois de se contorcer um pouco, soltou-se com facilidade do arranjo de Osebo. Em sua vez de amarrar, Ananse prendeu com sua teia de prata as quatro patas do Leopardo. Osebo contorceu-se por muito tempo, mas não conseguiu se soltar da teia mágica do deus e aceitou a derrota. “Você ganhou, Kwanku-Ananse. Sua teia é um nó que não sei desatar. Agora pode me soltar para que eu o mastigue.”, disse o Leopardo, querendo lembrar o velho da ordem natural das coisas. Mas Ananse já havia ido embora em busca de Mmboro, rindo e cantarolando, deixando Osebo preparado para ser entregue a Nyame, o Deus do Céu.

Ananse chegou ao palácio de Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam Como Fogo, e sentou-se do lado de fora, parecendo pensativo, olhando para uma cabaça. Vendo a cena, Mmboro foi até Ananse perguntar o que ele tanto pensava. O velho disse ao Marimbondo que imaginava se uma cabaça tão pequena e simples como aquela que ele tinha seria capaz de abrigar um rei como Mmboro. O Marimbondo respondeu a Ananse que era óbvio que aquela cabaça poderia servir de morada para um rei como ele, era até mesmo maior que seu palácio! Mesmo assim, Ananse não ficou convencido. Argumentava que aquela cabaça era pequena demais para um rei tão grandioso e que Mmboro não conseguiria nem mesmo entrar ali. O rei dos marimbondos era, além de grandioso, muito orgulhoso. Era capaz de fazer qualquer coisa para provar um argumento e resolveu mostrar à Ananse a ignorância de seu raciocínio. “Grandeza e força são mais do que atributos físicos, Kwanku. É ridículo que alguém tão astuto como você não saiba disso. Entrarei nessa cabaça e acabaremos essa discussão.”. Assim que Mmboro entrou dentro da cabaça, Ananse a tampou rapidamente, prendendo o Rei dos Marimbondos que Picam Como Fogo e deixando-o preparado para ser entregue a Nyame, Deus do Céu.

Para capturar Moatia, a Fada que Voa como o Vento, Ananse foi até uma grande árvore onde as fadas costumavam dançar durante o crepúsculo, o que dava ao céu belíssimas cores que fascinavam os homens. A fada que Ananse procurava sempre a primeira a chegar e sua dança era sentida no frescor que o ar ganhava com o cair da noite.

Ananse sabia que fadas adoravam coisas doces e, por isso, tratou de arranjar um cacho de bananas bem docinhas. Assim que o sol começou a se pôr, Ananse sentiu a brisa que anunciava a dança da fada. Ele puxou o enorme cacho de bananas, fingindo fazer força, largando-o bem em frente à árvore. “Ah! Não aguento mais! Essas bananas estão todas muito doces, mas não aguento mais carregar todo esse peso! Precisarei da ajuda de meus filhos para leva-las para casa!”, falou em voz alta, abandonando o cacho de bananas e embrenhando-se no mato, onde se escondeu. Sem esperar muito, a Fada já correu para o cacho de bananas, querendo comer todas as frutas antes que as outras fadas chegassem e a obrigassem a dividir aquela maravilha. Moatia comeu, comeu e comeu, até que não restasse sequer uma banana no cacho.

Ananse deixou seu esconderijo assim que a Fada comeu o último pedaço de banana para pegá-la. Normalmente, aquela fadinha Voaria como o Vento antes que o velho-aranha sequer tivesse tempo de preparar sua teia. Mas agora Moatia tinha comido demais e quando tentou levantar voo suas asas não aguentaram seu peso e ela caiu no chão. Sem perder tempo, Ananse a enrolou em sua teia, deixando-a preparada para ser entregue a Nyame, Deus do Céu.

Quando a noite chegou, Ananse teceu uma imensa teia de prata em volta de Osebo, Mmboro e Moatia e outra teia que ia do chão até o Céu e subiu por ela carregando os presentes até Nyame. “Nyame, Deus do Céu! Aqui estão as três criaturas que me pediu: Osebo, o Leopardo dos Dentes mais Terríveis; Mmboro, o Rei dos Marimbondos que Picam como Fogo e Moatia, a Fada que Voa como o Vento. Posso agora olhar a fabulosa caixa?”

O Deus do Céu ficou surpreso e frustrado com o sucesso do Deus Aranha, mas não era de quebrar promessas. Fez sinal para que Ananse se aproximasse, pegou a enorme caixa e abriu nela uma fresta, para que o Aranha espiasse as histórias que estavam ali escondidas. O que Nyame não lembrou é que Ananse não ligava tanto assim para promessas e que não queria só espiar as histórias. O velho aranha queria se tornar o dono delas e espalhá-las pelo mundo. Assim, quando o Deus do Céu abriu a caixa, Ananse deu um chute bem forte na caixa, fazendo rolar sua tampa e derramando sobre o mundo todas as histórias.

Ao ver seu tesouro esparramado pela terra, Nyame chorou. Agora as histórias eram todas de Ananse e dos homens e ele não tinha mais nada. O Deus-Aranha ficou com dó de Nyame. Querendo presentea-lo, envolveu com sua teia de prata a tampa da caixa que guardava as histórias, prendendo-a no céu. A tampa ficou enorme e brilhante com a prata da teia, e podia ser vista por todos os homens da terra. Ananse então disse a Nyame: “Agora todos sabem que as histórias foram espalhadas por Ananse e por isso a ele pertencem. Essa tampa de prata lembrará a todos que esses tesouros vieram de você, o Deus do Céu e cada história contada e criada será mais um presente à caixa de Nyame, que agora é a maior caixa de todas”, e com um gesto, Ananse mostrou ao deus do Céu que agora seu tesouro cresceria para sempre na imaginação dos homens, naquela imensa caixa que era o mundo. A tampa prateada ficou tão bela no céu que os homens a chamaram de Lua e em sua homenagem muitas histórias foram inventadas.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Flautista


Quando ela soube que a flauta era mágica teve logo de início um súbito desejo de tocá-la, imaginando as maravilhas que poderiam acontecer ao soar de sua melodia. Na madeira daquele instrumento intrigante ela dedilhou as palavras entalhadas "Qual é a música que queres emitir?".

Agora era, de fato, uma flautista que nada sabia tocar. Sempre imaginou que a flauta seria, certamente, um dos instrumentos mais fáceis de se tocar - "Qual é o segredo de assoprar?", pensou enquanto admirava aquele belo instrumento.

Imaginando a facilidade e tornando as necessidades de instruções, práticas e do estudo da música algo banal, a jovem apenas assoprou o instrumento enquanto desejou veemente ser rodeada por pessoas maravilhosas, fazer grandes amizades e tornar-se querida. O som saiu estridente, chegando ao ponto de ser irritante e doer-lhe os ouvidos e, por alguns instantes, imaginou se a flauta realmente era mágica e se o som que deveria sair dela não era algo melodioso e bonito.

Quando começaram os questionamentos a flautista notou que não estava mais sozinha na fria e escura floresta de Nilemah - e, por incrível que pareça, a floresta também não era mais escura. Agora fogueiras se acendiam, a vila antes silenciosa e cinzenta agora tinha vida novamente. As pessoas saiam de suas casas, felizes, saltitando e cantarolando uma cantiga animada no ritmo da melodia estridente e sem graça da flautista. Não há como sabermos ao certo se a música tocada pela flautista era a mesma escutada pela população do vilarejo, mas é certo que os moradores estavam se divertindo naquela noite. A jovem flautista ficou tão feliz que esqueceu-se do tom ridículo de sua canção e empolgou-se com as danças e com as canções e se divertia enquanto tocava sem parar aquele instrumento.

Virou uma completa festa. As crianças brincavam de roda em volta da menina, os jovens namoravam e corriam uns atrás dos outros, os adultos preparavam pratos suculentos e conversavam, riam e conheciam mais uns aos outros.

Quando sol estava prestes a aparecer e anunciar uma nova manhã, a flautista, exausta, resolveu cessar a música por um momento para que também desfrutasse da companhia de seus novos amigos, para que os conhecesse, bebesse e quem sabe petiscasse alguma coisa - não imaginava o quão cansativo era "assoprar uma vareta de madeira". Assim que a música parou, todas as pessoas pararam também. Ficaram cinzas novamente, não ouviam-se mais risadas, cessaram as cantorias e até as crianças pararam com suas algazarras.

Tudo voltou a ser como antes: cinza. Malograda, a flautista jogou a flauta no chão.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Virando Pedra

O guerreiro esgueirava-se pelo caminho escuro, sinuoso e úmido. O local tinha o cheiro da pedra molhada por água quente, e o calor fazia-o suar. Tinha um motivo para estar ali. Buscaria a cabeça de um monstro que, segundo a lenda, transformava os homens em pedra.

Sentia seu coração bater forte, aparentemente o único sinal de vida naquele local petrificado. A medida que ia andando notava que aquelas grandes pedras começavam a se parecer muito com pessoas paradas ali. Pessoas de pedra. Guerreiros que outrora tentaram buscar a cabeça do monstro que ali habitava, mas tiveram insucesso.

Seu coração disparou. Respirou fundo. Temeu ser percebido. Era um momento de tensão, onde qualquer movimento incauto poderia denunciá-lo. Respirou fundo e concentrou-se. Sua respiração quase ofegante já acalmava. Seu coração batia cada vez menos. Estava ficando tranquilo.

O calor a sua volta não o fazia mais suar. Sentia até uma corrente de ar frio vindo de certa direção. Era ali, o caminho que deveria tomar. O monstro que buscava denunciava a própria presença antes que o guerreiro fosse descoberto.

Passo a passo o guerreiro seguia. Sacou vagarosamente sua espada de lâmina larga e reluzente da bainha de veludo, capturando o brilho da lua no reflexo. Lá estava o segredo. O reflexo o ajudaria.

Mais alguns passos, andando de lado, rente as estátuas que outrora eram gente, percebeu o local exato do monstro. Chamou a atenção da criatura para um canto longe do local onde ele estava, arremessando uma pequena pedra. Um truque bobo, mas eficiente. O monstro seguiu aquele engodo.

Posicionou-se de forma a surpreender o alvo. Mas a criatura, entretando, não era tola. Percebendo o caçador em seu encalço, deu meia volta buscando uma entrada por entre as estátuas, surgindo atrás do guerreiro. Chiou, assim como todas as serpentes cobrindo a sua cabeça.

Estava calmo, frio, preparado para aquela situação. As batidas do seu coração já eram inaudíveis, talvez até mesmo para quem encostasse a cabeça em seu peito. Num ato calculado, como se esperasse justamente aquela oportunidade, ergueu sua espada a frente, sem se virar. Na lâmina bem lustrada percebeu o monstro bem atrás dele, e antes que a criatura percebesse a armadilha, viu a lâmina virar rapidamente e cortar sua garganta.

Era o fim do monstro, que nem a um grito agonizante teve direito. O guerreiro ficou satisfeito, mas não se manifestou. Andou mais adiante, e para a sua surpresa, percebeu outras criaturas como a que acabara de matar. Em um ato reflexo acabou com todas, dentre as 5 ou 6 que ali estavam.

Agora sua espada estava suja de sangue. Olhou em volta e viu que as criaturas sentiam-se acuadas antes da morte. Abraçavam-se, protegendo-se de uma evidente ameaça. Um invasor, um monstro que havia derrotado a única esperança de defesa que possuiam. Pareciam uma família, reunida, como para uma refeição.

O guerreiro ao ver essa cena poderia lembrar-se de todas as famílias que a criatura que derrotou havia destruído. Poderia ter tomado as dores, considerando aquele fim uma grande vingança. Ser dominado por uma imensa tristeza e arrependimento, por maior que pudesse ser o sentimento de justiça. Ou até poderia apenas sentir-se orgulhoso de seu feito.

Mas o guerreiro nada sentiu.