segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A Flautista


Quando ela soube que a flauta era mágica teve logo de início um súbito desejo de tocá-la, imaginando as maravilhas que poderiam acontecer ao soar de sua melodia. Na madeira daquele instrumento intrigante ela dedilhou as palavras entalhadas "Qual é a música que queres emitir?".

Agora era, de fato, uma flautista que nada sabia tocar. Sempre imaginou que a flauta seria, certamente, um dos instrumentos mais fáceis de se tocar - "Qual é o segredo de assoprar?", pensou enquanto admirava aquele belo instrumento.

Imaginando a facilidade e tornando as necessidades de instruções, práticas e do estudo da música algo banal, a jovem apenas assoprou o instrumento enquanto desejou veemente ser rodeada por pessoas maravilhosas, fazer grandes amizades e tornar-se querida. O som saiu estridente, chegando ao ponto de ser irritante e doer-lhe os ouvidos e, por alguns instantes, imaginou se a flauta realmente era mágica e se o som que deveria sair dela não era algo melodioso e bonito.

Quando começaram os questionamentos a flautista notou que não estava mais sozinha na fria e escura floresta de Nilemah - e, por incrível que pareça, a floresta também não era mais escura. Agora fogueiras se acendiam, a vila antes silenciosa e cinzenta agora tinha vida novamente. As pessoas saiam de suas casas, felizes, saltitando e cantarolando uma cantiga animada no ritmo da melodia estridente e sem graça da flautista. Não há como sabermos ao certo se a música tocada pela flautista era a mesma escutada pela população do vilarejo, mas é certo que os moradores estavam se divertindo naquela noite. A jovem flautista ficou tão feliz que esqueceu-se do tom ridículo de sua canção e empolgou-se com as danças e com as canções e se divertia enquanto tocava sem parar aquele instrumento.

Virou uma completa festa. As crianças brincavam de roda em volta da menina, os jovens namoravam e corriam uns atrás dos outros, os adultos preparavam pratos suculentos e conversavam, riam e conheciam mais uns aos outros.

Quando sol estava prestes a aparecer e anunciar uma nova manhã, a flautista, exausta, resolveu cessar a música por um momento para que também desfrutasse da companhia de seus novos amigos, para que os conhecesse, bebesse e quem sabe petiscasse alguma coisa - não imaginava o quão cansativo era "assoprar uma vareta de madeira". Assim que a música parou, todas as pessoas pararam também. Ficaram cinzas novamente, não ouviam-se mais risadas, cessaram as cantorias e até as crianças pararam com suas algazarras.

Tudo voltou a ser como antes: cinza. Malograda, a flautista jogou a flauta no chão.

4 comentários:

  1. Gostei do texto! A flauta não parece só encantada, mas também amaldiçoada! Se eu fosse quem tocasse a teria jogado longe! Sabe, a maldição do palhaço? Ele faz graça pra todo mundo, mas quem faz graça pra ele?

    A flauta também transforma o mundo a partir dos desejos da pessoa que a toca. Mas sem o esforço contínuo da flautista, o mundo não seria da forma que ela gostaria. Se queremos um mundo do nosso jeito, temos que arregaçar as mangas! Ou nos contentar com o mundo do jeito que é, e jogar a flauta fora.

    Ansioso pelo seu próximo texto! :D

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  2. Aw!
    adoreeeeeeei! Achei lindo!
    Gostei muito dessa flautista que NÃO SABE tocar. E que considerou no início que saber tocar a flauta era dispensável.
    Foi o que mais me marcou...Ela quis algo instantâneo, felicidade instantanea, sem nem cogitar buscar algo antes. E então, todas as maravilhas que ela queria apareceram..e se foram. Foi realmente só um sopro na flauta e só um sopro de felicidade.
    Final triste e lindo!

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  3. ah!
    quase esqueci de comentar!
    QUE ILUSTRAÇÃO LINDA VOCÊ COLOCOU!!!!

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  4. Ahhhh, fiquei feliz que todos gostaram! Já tô maquinando meu próximo texto!

    Raoni, adorei a frase da "Maldição do Palhaço", nunca tinha pensado nisso!

    Pois é, Nathália, quantas vezes não estamos tããão atordoados com nossos problemas que ficamos esperando que as coisas simplesmente mudem de uma hora para outra e por simples mágica?

    Amei a ilustração também! <3 Até eu fiquei surpresa por ter encontrado uma imagem tãããão linda e perfeita.

    :*

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