Agora era, de fato, uma flautista que nada sabia tocar. Sempre imaginou que a flauta seria, certamente, um dos instrumentos mais fáceis de se tocar - "Qual é o segredo de assoprar?", pensou enquanto admirava aquele belo instrumento.
Imaginando a facilidade e tornando as necessidades de instruções, práticas e do estudo da música algo banal, a jovem apenas assoprou o instrumento enquanto desejou veemente ser rodeada por pessoas maravilhosas, fazer grandes amizades e tornar-se querida. O som saiu estridente, chegando ao ponto de ser irritante e doer-lhe os ouvidos e, por alguns instantes, imaginou se a flauta realmente era mágica e se o som que deveria sair dela não era algo melodioso e bonito.
Quando começaram os questionamentos a flautista notou que não estava mais sozinha na fria e escura floresta de Nilemah - e, por incrível que pareça, a floresta também não era mais escura. Agora fogueiras se acendiam, a vila antes silenciosa e cinzenta agora tinha vida novamente. As pessoas saiam de suas casas, felizes, saltitando e cantarolando uma cantiga animada no ritmo da melodia estridente e sem graça da flautista. Não há como sabermos ao certo se a música tocada pela flautista era a mesma escutada pela população do vilarejo, mas é certo que os moradores estavam se divertindo naquela noite. A jovem flautista ficou tão feliz que esqueceu-se do tom ridículo de sua canção e empolgou-se com as danças e com as canções e se divertia enquanto tocava sem parar aquele instrumento.
Virou uma completa festa. As crianças brincavam de roda em volta da menina, os jovens namoravam e corriam uns atrás dos outros, os adultos preparavam pratos suculentos e conversavam, riam e conheciam mais uns aos outros.
Quando sol estava prestes a aparecer e anunciar uma nova manhã, a flautista, exausta, resolveu cessar a música por um momento para que também desfrutasse da companhia de seus novos amigos, para que os conhecesse, bebesse e quem sabe petiscasse alguma coisa - não imaginava o quão cansativo era "assoprar uma vareta de madeira". Assim que a música parou, todas as pessoas pararam também. Ficaram cinzas novamente, não ouviam-se mais risadas, cessaram as cantorias e até as crianças pararam com suas algazarras.
Tudo voltou a ser como antes: cinza. Malograda, a flautista jogou a flauta no chão.